
A ENCÍCLICA “CÁRITAS IN VERITATE”, O MERCADO E A ECONOMIA
Caro leitor! Um dos traços marcantes de nossa época é a relativa facilidade de opinar aos diversos acontecimentos no decorrer da história. É um dado relevante, pois o debate de idéias, princípios, valores e contra valores quando feito com seriedade e respeito, dá contornos de uma sociedade madura e livre. Nesse contexto, a Igreja sempre tem procurado participar e contribuir, ao longo da história. Contudo, essa abertura também pode nos induzir a contra valores que não coadunam com os valores cristãos e muito menos na construção de uma sociedade sadia, pois, são pontos de interesse comum, independente de credo, mas que dizem respeito aos diversos segmentos e correntes da sociedade como um todo. Tendo lido a posição de alguns analistas sociais em relação à nova encíclica papal, chamou-me atenção que esses fazem uma comparação com pontos divergentes em relação à “Caritas in Veritate” e à “Centesimus Annus” de João Paulo II. Essa última dá uma visão do papel do mercado e da natureza do capitalismo em três pontos: 1. Alguns dizem que a atual encíclica é uma continuidade da “Centesimus Annus”. 2. Outros que há diversidade contida nela. 3. E há os que afirmam que simplesmente há uma oposição entre elas. Baseado na observação crítica de Giampaolo Crepaltti (Arcebispo de Trieste, Itália), parece não haver tantas divergências em questões da essência, mas sim na evolução dos problemas em curso. A análise feita por ele ajuda a clarear alguns pontos ao nosso leitor, já que estou expondo e comentando a encíclica de Bento XVI.
O “MERCADO” EM JOÃO PAULO II NA “CENTÉSIMUS ANNUS”
Ao abordar a questão do “mercado” na encíclica, essa, abordava: “(...) o mercado é em primeiro lugar um sistema de prêmios dos recursos econômicos que, porém existe sempre dentro de um contexto de vínculos não só econômicos”. E continua: “(...) mesmo a ciência econômica mais prudente afirma que o mercado ‘perfeito’ no sentido de que funciona perfeitamente nos seus mecanismos abstratos e ideais não existe: O mercado nunca é apenas uma técnica, embora tenha aspectos técnicos ineludíveis”. (cf.op.cit. Gaimpaolo Crepaldi. Arcebispo de Trieste. L’osservatore romano nº31. 10/09/2009. p.5). É curioso, nessa colocação, a preocupação que João Paulo II tinha em agregar todos os segmentos da sociedade e, esses, terem o controle sobre o mercado. Essa posição de João Paulo II tinha referência a todo um sistema sócio-cultural. Percebe-se aí que estava em jogo uma visão antropológica da experiência de João Paulo II no leste Europeu, pois atingia o homem na sua essência e esquecia de ressaltar e valorizar a dimensão ética do homem como fim e absolutizando apenas a questão cultural. Giampaolo, ao fazer sua análise, diz que dois aspectos são importantes colocar: 1. Não se pode viver sem mercado. 2. Mas, invitavelmente orientado. De acordo com o Arcebispo: “Não se pode viver sem o mercado, porque não se pode negar a racionalidade econômica, que é uma dimensão da verdade. Deve-se orientá-lo porque esta racionalidade econômica é insuficiente e tem necessidade de ser inserida em todo “sistema sociocultural”. Não existe um mercado não orientado, pois na verdade o próprio materialismo ou a maximização do lucro são formas de orientação do mercado. Portanto, não pertencem ao mercado como técnica econômica, mas sim, ao “sistema sociocultural de referência”. “A teoria da tecnicidade exclusiva do mercado compreendida como a rejeição da necessidade de uma orientação não é uma posição científica e axiológica neutra, mas uma ideologia que tem na sua base a defesa de uma liberdade absoluta no campo econômico” (cf.ibidem). Ora, isso é inaceitável, pois é de natureza sócio-cultural.
O MERCADO NA VISÃO DA ENCÍCLICA DE BENTO XVI
1. Que seja um sistema econômico que reconheça o papel fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada com a consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no setor da economia, isso é positivo.
2. Se a liberdade da economia não está enquadrada num sólido contexto jurídico que a coloque ao serviço da liberdade humana integral e a considere como uma dimensão particular desta liberdade, cujo centro não seja ético e religioso então é uma conduta negativa.
3. O mercado nunca é só um dado técnico, pois precisa funcionar em formas de solidariedade e de confiança (cf.nº35).
4. Bento XVI em sintonia com João Paulo II insiste: “Não só a justiça deve interessar todas as fases da vida econômica, mas também a gratuidade e o dom da fraternidade. Caro leitor! Daí os elementos que derivam tanto da caridade como da verdade, pois a verdade é dom e gratuidade. Na visão do Papa é necessária uma superação da atual organização econômica, pois segundo a lógica da fraternidade, essa nasce das mesmas evoluções econômicas políticas ligadas à globalização. Portanto, o mercado em estado puro não existe, mas sim em forma das configurações culturais que o especificam e o orientam (nº36). Esses são alguns pontos colocados pela encíclica de Bento XVI no que diz respeito à questão do mercado.
Pense e reflita!
Paróquia N.ª Sr.ª de Lourdes – Canela – RS
Pe. Ari Antônio da Silva – Capelão do OÁSIS Santa Ângela
Doutor em Filosofia – UPSA – Salamanca – Espanha
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Ao abordar a questão do “mercado” na encíclica, essa, abordava: “(...) o mercado é em primeiro lugar um sistema de prêmios dos recursos econômicos que, porém existe sempre dentro de um contexto de vínculos não só econômicos”. E continua: “(...) mesmo a ciência econômica mais prudente afirma que o mercado ‘perfeito’ no sentido de que funciona perfeitamente nos seus mecanismos abstratos e ideais não existe: O mercado nunca é apenas uma técnica, embora tenha aspectos técnicos ineludíveis”. (cf.op.cit. Gaimpaolo Crepaldi. Arcebispo de Trieste. L’osservatore romano nº31. 10/09/2009. p.5). É curioso, nessa colocação, a preocupação que João Paulo II tinha em agregar todos os segmentos da sociedade e, esses, terem o controle sobre o mercado. Essa posição de João Paulo II tinha referência a todo um sistema sócio-cultural. Percebe-se aí que estava em jogo uma visão antropológica da experiência de João Paulo II no leste Europeu, pois atingia o homem na sua essência e esquecia de ressaltar e valorizar a dimensão ética do homem como fim e absolutizando apenas a questão cultural. Giampaolo, ao fazer sua análise, diz que dois aspectos são importantes colocar: 1. Não se pode viver sem mercado. 2. Mas, invitavelmente orientado. De acordo com o Arcebispo: “Não se pode viver sem o mercado, porque não se pode negar a racionalidade econômica, que é uma dimensão da verdade. Deve-se orientá-lo porque esta racionalidade econômica é insuficiente e tem necessidade de ser inserida em todo “sistema sociocultural”. Não existe um mercado não orientado, pois na verdade o próprio materialismo ou a maximização do lucro são formas de orientação do mercado. Portanto, não pertencem ao mercado como técnica econômica, mas sim, ao “sistema sociocultural de referência”. “A teoria da tecnicidade exclusiva do mercado compreendida como a rejeição da necessidade de uma orientação não é uma posição científica e axiológica neutra, mas uma ideologia que tem na sua base a defesa de uma liberdade absoluta no campo econômico” (cf.ibidem). Ora, isso é inaceitável, pois é de natureza sócio-cultural.
O MERCADO NA VISÃO DA ENCÍCLICA DE BENTO XVI
1. Que seja um sistema econômico que reconheça o papel fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada com a consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no setor da economia, isso é positivo.
2. Se a liberdade da economia não está enquadrada num sólido contexto jurídico que a coloque ao serviço da liberdade humana integral e a considere como uma dimensão particular desta liberdade, cujo centro não seja ético e religioso então é uma conduta negativa.
3. O mercado nunca é só um dado técnico, pois precisa funcionar em formas de solidariedade e de confiança (cf.nº35).
4. Bento XVI em sintonia com João Paulo II insiste: “Não só a justiça deve interessar todas as fases da vida econômica, mas também a gratuidade e o dom da fraternidade. Caro leitor! Daí os elementos que derivam tanto da caridade como da verdade, pois a verdade é dom e gratuidade. Na visão do Papa é necessária uma superação da atual organização econômica, pois segundo a lógica da fraternidade, essa nasce das mesmas evoluções econômicas políticas ligadas à globalização. Portanto, o mercado em estado puro não existe, mas sim em forma das configurações culturais que o especificam e o orientam (nº36). Esses são alguns pontos colocados pela encíclica de Bento XVI no que diz respeito à questão do mercado.
Pense e reflita!
Paróquia N.ª Sr.ª de Lourdes – Canela – RS
Pe. Ari Antônio da Silva – Capelão do OÁSIS Santa Ângela
Doutor em Filosofia – UPSA – Salamanca – Espanha


