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CF - 2009 E A SEGURANÇA PÚBLICA: A MATERIALIZAÇÃO DA TEORIA DE LE CORBUSIEUR E SUA DECORRÊNCIA PRÁTICA

Caro leitor! De acordo com Zygmunt Bauman, em Brasília se concretizou algo que, com certeza, no entusiasmo do modernismo da época, a que faltara leitura crítica dos princípios que regiam tal ideologia. Os sintomas – notáveis dessa teoria – são: a ausência de multidões e ajuntamentos, as esquinas vazias, o anonimato dos lugares, as figuras humanas sem rosto e a entorpecente monotonia de um ambiente desprovido de qualquer coisa que intrigasse, excitasse ou causasse perplexidade. O Plano de Brasília elimina a possibilidade de encontros fortuitos em quaisquer lugares que não os poucos especificamente destinados a reuniões propositais. “Marcar um encontro no único ‘Forum’ projetado, a enorme ‘Praça dos Três Poderes’ é o mesmo que marcar um encontro no deserto de Gobi” (Fonte: ibidem p. 52). Caro leitor! “O espaço planejado em Brasília está estruturado, segundo Bauman, como instalação de homúnculos nascidos e alimentados em tubos de ensaio, para criaturas compostas de tarefas administrativas e definições legais” (cf. ibidem). O que chama atenção em tudo isso e baseado nessa estranha teoria de Le Corbusieur, é o fato de tudo ser tão perfeitamente pesado, medido e planejado que não há espaço verdadeiramente humano que dê sentido às relações interpessoais. Enfim, há um grasso erro antropológico, já que o homem é um ser que precisa do outro para se realizar. Bauman afirma que “poucos urbanistas consumidos pela paixão modernizadora tiveram um campo tão vasto de ação como o que se ofereceu à imaginação de Niemeyer” (cf.ibidem p.52).


E O MEDO? E A INSEGURANÇA?

Há um escritor norte-americano, Richard Sennett, que analisou o problema da segurança e o iminente “declínio do homem público”. Ele afirma que “é assustador o estrago causado às vidas de pessoas reais em nome da realização de algum plano abstrato de desenvolvimento ou renovação”. Com certeza, que executar tais planos nas tentativas de “homoneizar” o espaço urbano, de torná-lo “lógico”, “funcional” ou “legível”, desestrutura todos os laços humanos e induz a uma situação real de abandono, solidão, combinado com um vazio interior. Daí, podemos inferir o absurdo da ideologia de Le Corbusieur, quando esse planeja uma cidade sem chão. Afinal, isso tem um preço, humanamente falando, desastroso por ser artificial e calculado para se viver no anonimato e na funcionalidade do espaço. Caro leitor! Observe se isso não cria um problema sério de identidade! Diz Bauman: “A monotonia impessoal e a pureza clínica do espaço artificialmente construído desprezaram-nos da oportunidade de negociar significados” (cf.ibidem p.53). Os EUA nos últimos anos, principalmente após a derrubada das torres gêmeas tem, cada vez mais, um sentimento de histeria e medo do diferente. Ora, a cidade construída originalmente em nome da segurança, para proteger de invasores mal intencionados se tornou um pesadelo para o homem contemporâneo.


OS MEDOS CONTEMPORÂNEOS, OS MEDOS URBANOS SE CONCENTRAM NO “INIMIGO INTERIOR”

Ironicamente, a idealização de cidades seguras como garantia acabou se configurando na “ausência de vizinhos com pensamentos, atitudes e aparências diferentes. A uniformidade alimenta a conformidade e a outra face da conformidade é a intolerância. Numa localidade homogênea é extremamente difícil adquirir as qualidades de caráter e habilidades necessárias para lidar com a diferença humana e situações de incerteza; e na ausência dessas habilidades e qualidades é facílimo temer o outro, simplesmente por ser outro e diferente” (cf.ibidem). A CF-2009 nos convida a olharmos para dentro de nós, pois o medo que sentimos é muito mais fruto do vazio de Deus no coração humano envolto na lama do pecado do que aquilo que passa pelo externo da nossa existência. A quaresma é um tempo forte para um bom exame de consciência e termos a coragem de nos questionar: Qual é o medo que tenho? De quem? Por quê? O que me causa insegurança?


SINTOMAS EXTERNOS DA INSEGURANÇA E DO MEDO.

O aumento dos carros fechados, das portas de casa e dos sistemas de segurança, a popularidade das comunidades fechadas e seguras em todas as faixas de idade e de renda e a crescente vigilância nos espaços públicos, para não falar nas intermináveis reportagens sobre o perigo que aparecem nos veículos de comunicação em massa. (ibidem p.55). E tem mais: os muros construídos outrora em volta da cidade cruzam agora a própria cidade em inúmeras direções. Os bairros vigiados, espaços públicos com proteção cerrada e admissão controlada, guarda bem armados no portão dos condomínios e portas operadas eletronicamente tudo isso para afastar concidadãos indesejados, salteadores de estrada, saqueadores ou outros perigos desconhecidos, emboscadas extramuros.


O DESAFIO PARA A CONVERSÃO NESSE PERÍODO QUARESMAL.

Caro leitor! Só nos sentiremos seguros quando nos desarmamos no interior de nosso coração. Quando o espírito de Jesus explicitado na solidariedade e na justiça, fizer parte da cultura contemporânea. É preciso mudança de vida.

Pense e reflita!
Paróquia N.ª Sr.ª de Lourdes – Canela – RS
Pe. Ari Antônio da Silva – Capelão do OÁSIS Santa Ângela
Doutor em Filosofia – UPSA – Salamanca – Espanha
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