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O ESTRESSE: REDESCOBRIR E VALORIZAR O RITMO DO TEMPO É O SEGREDO DE VIVER SAUDÁVEL

Caro leitor! Diariamente, recebo pessoas cansadas, estressadas, doentes, tristes e sem nenhuma perspectiva. Outros entram em minha sala de atendimento, como se fosse o final de uma fracassada existência. Diante disso, comecei a me perguntar: Como posso ajudar essas pessoas? Ora, o ativismo frenético e a falta de silêncio interior e exterior da sociedade contemporânea resultam no vazio de sentido, de valores que, paulatinamente, vão se diluindo no exclusivo “fazer” sem ter tempo para digerir conteúdo algum. Somos constantemente bombardeados por inúmeras informações, contudo não há espaço para internalizar. Afinal, conhecer exige método, reflexão e silêncio. Ora, através dessa postura, somos induzidos a superficialidade. O ativismo é um mal que atingiu todos os meandros da sociedade, desde a família, o trabalho, a vida social, até a religião. O resultado é a falta de alegria de viver e o aparecimento de estranhas doenças que a própria medicina de ponta não consegue diagnosticar. Vejamos: “(...) o ritmo cria o tempo; o relógio apenas mede. Na Idade Média, o povo vivia o tempo ritmado por festas, celebrações e rituais. Pelo ritmo de festas e rituais, o tempo estava dividido em períodos, cada um com um sentido, que todo mundo aceitava. O tempo tinha qualidade. Não tratava de explorá-lo, mas de se engajar em seu ritmo a fim de assim perceber o sentido da vida. Era um ritmo cultural, que unia entre si os seres humanos. O tempo sempre era percebido como tempo social” (cf. Grün, Anselm. No ritmo dos monges. Convivência com o tempo um bem valioso. Paulinas. 2006. p.46). Ora, é corrente entre os profissionais da saúde, como médicos, psicólogos e outros, como o tempo ritmado, “é um componente essencial da existência humana” (cf.ibidem p.42). Ao subestimá-lo, adoecemos. Esse é o problema do mundo atual, pois, movidos pelo princípio de que “tempo é dinheiro”, ficamos asfixiados, perdemos o compasso do tempo e o contato com o nosso “Eu”. O pesquisador do tempo Karlheinz A. Geisler fez uma distinção bem nítida entre o compasso mecânico que regula as máquinas e o tempo natural das pessoas. O estresse, as estranhas doenças, a ausência do cultivo da fé, pela ganância de “ter coisas materiais” é a causa da crise do mundo atual.


RAÍZ ETIMOLÓGICA DO TEMPO.

A palavra latina “temperare” tem muitos sentidos. Ela vem de “tempus” = tempo. Temperare pode significar estabelecer a finalidade e a medida de uma coisa, observar a medida certa, ser moderado, por nas devidas proporções, misturar, dirigir, governar. Caro leitor! Observemos a realidade da vida hoje. É um sofrimento para muitas famílias, pois, cada membro vive um ritmo diferente. Não existem mais “horas de refeição”, como os povos a desenvolveram desde os tempos antigos. O ritmo cria espaços livres durante o dia (cf.ibidem-p.49). Eis aí a crise das famílias hoje. A falta de encontro, diálogo, escuta, oração e silêncio tem consequências trágicas. Diz Geisler: “(...) o ritmo tira o peso do tempo e nos liberta de sua tirania”. Ora, esse, é salutar para o indivíduo e tem uma função social.


O FASCÍNIO DO MUNDO CONTEMPORÃNEO PELO BUDISMO E OUTRAS CORRENTES QUE LEVAM À CONTEMPLAÇÃO.

Quando entrei no Seminário, tinha 12 anos. Isso foi antes do Concílio Vaticano II. Nessa idade, aprendi na época a disciplina, o cultivo do silêncio e o ritmo do tempo. Foi nesse ambiente que formei minha personalidade. Aliás, sou grato à Igreja por ter experimentado esses valores. O monge beneditino Anselm Grün diz: “Comunidades religiosas que, nos anos 1960, consideraram a ordem do dia nos mosteiros como um modelo antiquado de vida, que devia ser abolido, não chegaram com isso a uma vitalidade maior. Pelo contrário, em geral, tornaram-se aburguesados e perderam sua identidade. Não irradiam mais nenhuma fecundidade” (cf.ibidem- p.51). Com certeza, no ritmo comum, é preciso também de ritmo próprio senão o indivíduo afunda-se na comunidade, pois “(...) é seu ritmo pessoal que o mantém vivo, o qual torna possível que em seu interior, a vida flua e frutifique” (cf.ibidem). Pois, curiosamente sou procurado por muitos intelectuais, universitários, médicos, psicólogos, psiquiatras que na conversa me dizem: Sabe padre, gosto de frequentar o Centro Budista para vivenciar o silêncio, a meditação e a contemplação. Por que na Igreja Católica não tem espaço? Isso tem me inquietado, pois na verdade a Igreja sempre teve grande tradição nessa linha. E acrescentam: Nossas missas não dão espaço para meditar, são muito barulhentas, carecem de silêncio. Por outro lado, esses, afirmam: Contudo, gosto do canto gregoriano. Grün diz: “(...) no canto gregoriano a Palavra de Deus se torna audível e penetra no coração e o transforma”. E continua: “Certa ocasião um músico eclesiástico me disse: ‘O canto gregoriano é a arte de tornar o silêncio audível e fazer o tempo parar’” (cf.ibidem-p.61). Caro leitor! Nós cristãos, de modo especial, os católicos, precisamos rever que tipo de mística estamos oferecendo nas nossas liturgias que, muitas vezes, são vazias, barulhentas e formais. Sinto ao conversar com essas pessoas o cansaço nesse frenético mundo do barulho que sempre mais desloca as pessoas do encontro com o “Eu” que é abertura para a transcendência, o que as faz procurar em outros lugares. É um bom questionamento para os liturgos, agentes de pastoral, catequistas, sacerdotes, consagrados(as), religiosos(as). (próximo artigo: A Mística Cristã e a Mística da Nova Era).

Pensa e reflita!
Paróquia N.ª Sr.ª de Lourdes – Canela – RS
Pe. Ari Antônio da Silva – Capelão do OÁSIS – Canela
Doutor em Filosofia – UPSA – Salamanca – Espanha
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