Um dos maiores desafios na atual civilização é harmonizar progresso técnico, trabalho digno para o sustento e respeito à dignidade da pessoa que tem valor em si. Por outro lado, a busca para solucionar os conflitos decorrentes da opressão na qual vive o homem atual é um desafio. A complexidade da estrutura sociológica que alcançamos nos últimos anos, com certeza, favoreceu a crise econômica mundial, gerou medo e insegurança frente a um futuro incerto e desconcertante. Ora, a globalização forçou a sociedade, como um todo, ao posicionamento nesse momento crucial da história, a refletir e buscar soluções, independentes de particularismos egocêntricos àqueles que possuem poder de decisão. A teologia calvinista do séc. XVI defendeu o trabalho como complementação da obra da criação, mas acentuando de forma unidimensional, que um dos sinais da salvação era produzir riquezas e bens, como expressão de salvação e do bem querer de Deus. Isso caracterizou o trabalho como algo que dignifica o ser humano. Entretanto, a ética do trabalho no conceito da teologia calvinista requer um ajuste, pois, embora houvesse mudança na concepção de trabalho, ao mesmo tempo deslocara do verdadeiro sentido do mesmo, ou seja, o capitalismo justificou sua ação nos princípios da ética calvinista do trabalho. Esse levou e radicalizou ao apego excessivo aos bens materiais chegando ao liberalismo econômico e ao neoliberalismo, ambos desumanos. No início da Idade Moderna, o capitalismo deitou suas raízes em três pontos: a) no dinamismo da corrida na produção. b) na liberdade de concorrência sem limite. c) E o lucro como fim último de todo o processo. O auge dessa situação aconteceu com o absolutismo da razão, que teve seu ponto alto no séc. XIX com importantes descobertas científicas. É a fase do iluminismo que tem como máxima “A razão é guia infalível de toda a verdade”. Esse antropocentrismo movido pelo interesse do capital tornou o Séc. XX, como um dos períodos mais conturbados da história. Foram tantos acontecimentos e avanços que sentimos hoje os reflexos, alguns positivos e outros negativos. Contudo no início desse novo século, percebe-se no homem a perda do senso do “tempo”, do “humor”, do "lúdico" bem como a sonhada paz e realização no seu viver.
A SOCIEDADE DE CONSUMO É ESPECIALISTA EM CRIAR NECESSIDADES SUPÉRFLUAS. POR QUÊ?
Há uma síndrome paradoxal entre a indústria que gera produtos não duráveis e descartáveis para vender mais e rapidamente. Essa mola dúbia gira de forma tão veloz que faz também a economia de mercado andar na mesma proporção. Por outro lado, os postos de trabalho não caminham na mesma proporção até porque a informatização reduz drasticamente a mão de obra substituindo com mais eficiência e perfeição o trabalho humano. Vejamos: “(...) A relação tradicional entre necessidades e sua satisfação precedem a necessidade que se promete satisfazer e serão sempre mais intensas e atraentes que as necessidades efetivas” (Bauman, Zygmunt. Globalização. As consequências humanas. Zahar. p.90). E continua: “(...) A índole desta sociedade proclama: caso esteja se sentindo, mal, coma!... O reflexo consumista é melancólico, supondo que o mal-estar adquire a forma de se sentir vazio, frio, deprimido – com necessidade de se encher de coisas quentes, ricas, vitais. Claro que não precisa ser comida, como na canção dos Beatles, “sinto-me feliz por dentro”. Suntuoso é o caminho para a salvação - consuma e sinta-se bem! (cf.op.cit. John, Carrol. in Zygmunt, Baumann. ibidem). Outro aspecto interessante para refletirmos é quando o autor ainda acrescenta: “Há também inquietude, a mania de mudanças constantes, de movimento, de diversidade – ficar parado, sentado, é a morte... Ora, “O consumismo é assim análogo social da psicopatologia da depressão, com seus gêmeos em choque: o nervosismo e a insônia.” (ibidem). Caro leitor! As escolas Superiores de Marketing hoje, se especializam em não dar nunca descanso ao consumidor, mas torná-los sempre acordados, em alerta contínuo para que assim sejam sempre expostos a novas tentações num estado excitante, constante, perpétuo e sempre insatisfeito. “O consumidor é uma pessoa em movimento e fadada a se mover sempre” (ibidem. p.93). Pergunto: Como ser feliz nessa ciranda e gaiola armada por uma visão unilateral dos bens desse mundo? Como ser feliz se perdemos a capacidade de decidir e escolher?
A DEPRESSÃO É UM GRITO DE SOCORRO DA ALMA CONTRA O DESENRAIZAMENTO E A RAPIDEZ DAS MUDANÇAS.
Caro leitor! É linguagem corrente na atualidade de que esse século está doente. Característica: depressão, pânico, medo e insegurança. Ora, num mundo em que praticamente tudo parece realizável, a alma reage com a depressão. Porque nem tudo depende de nossa vontade. Somos bombardeados diariamente por todos os meios que nos incitam a consumir e perdemos a capacidade de selecionar aquilo que é necessário para viver bem sem o supérfluo. Muitos trabalham apenas para ter dinheiro e consumir, eis a tragédia! Precisamos reaprender que a frugalidade da vida nos torna muito mais felizes e realizados. “A família é uma das principais causas do aumento das depressões, assim como a perda das relações religiosas” (cf.op.cit. apud Nuber. 2006. in Grün, Anselm. O tratamento espiritual da depressão. Vozes. 2009. p.8). Perdemos as raízes e nossa identidade, movidos pelo ter. É preciso repensar valores.
Pense e reflita!
Paróquia N.ª Sr.ª de Lourdes – Canela – RS
Pe. Ari Antônio da Silva – Capelão do OÁSIS Santa Ângela
Doutor em Filosofia – UPSA – Salamanca – Espanha
O tema desta semana tem o objetivo de abordar questões relativas ao Jesus histórico, a vida familiar em Nazaré, a inserção e a vivência na cultura dos seus contemporâneos e o gradual distanciamento dos laços familiares, para assumir a missão para o qual foi enviado pelo Pai, assim como a consciência de sua messianidade, ou seja, o "Deus-Homem" que veio para elevar a natureza humana, decaída pelo pecado a uma dignidade sem igual.
A FAMÍLIA HUMANA DE JESUS
Antes de falar sobre a família de Jesus, cabe fazer uma observação muito importante relativo à Maria. No artigo anterior, coloquei que Maria ficou grávida por obra do Espírito Santo (cf.Mt.1,18-25). Sim, pois era "(...) indispensável a virgindade de Maria para preparar um óvulo, como cromossomos e genes sem mancha, nem sombra de pecado e sem seqüelas negativas" (cf.Kyrios - Kloppenburg - p.29). Caro leitor! Jesus é Deus que assumiu a natureza humana e não podia ter nada de pecado na sua genética. Quanto à infância de Jesus temos alguns dados importantes: 1-a pobreza em que Jesus nasceu (cf.Mt.2,12). 2-a fuga para o Egito por causa de Herodes que queria matá-lo (cf.Mt.2,13-23). 3-o episódio aos 12 anos quando Maria e José encontraram o menino no templo debatendo com os doutores da Lei. Ora, estes, estavam perplexos com a inteligência e as respostas de Jesus. Onde Jesus tinha aprendido tanto? Após este fato diz a bíblia que Ele "(...) voltou com Maria e José para Nazaré, e era obediente à eles, crescendo em sabedoria, tamanho e graça diante de Deus e dos homens"(cf.Lc.2,46-52). " O crescimento de Jesus se deu em Nazaré, e, nas festas, em Jerusalém, não na Índia, ou no Egito, na Pérsia, na Mesopotâmia, ou em qualquer outro lugar fantasiado por aqueles que desconhecem a natureza inteiramente singular do Logos humanado"(cf.ibidem p.33). Jesus viveu a condição humana como cada um de nós. Uma vida simples, humilde, vida de trabalho manual, religiosa, como os costumes judaicos de sua comunidade. Um fato que chama atenção é que quando Jesus inicia o seu ministério público, ele era conhecido simplesmente como o "filho do carpinteiro"(cf.Mt.13,35).
O CARPINTEIRO, JOSÉ, PAI ADOTIVO DE JESUS.
Seguindo a fonte que me inspira este texto, o evangelista Marcos nos fornece um dado peculiar. Ele chama Jesus "o carpinteiro" filho de Maria (cf.Mc.6,3). É provável que José, falecera e Jesus assumiu a profissão do Pai adotivo. Jesus era o único carpinteiro de Nazaré. Como tal era conhecido. De acordo com esta fonte, talvez tenha ajudado na construção da cidade Séforis, então capital da Galiléia, e que ficava a uma hora de Nazaré e que fora destruída pelos romanos e reconstruída pelos anos 16 ou 17, quando Jesus tinha seus vinte(20) e poucos anos. Lá pode ter tomado conhecimento de usos e costumes da gente da cidade maior, que depois ilustrarão suas parábolas. Lá também terá aprendido um pouco de grego, que lhe permitirá conversar mais tarde, em Jerusalém com Pôncio Pilatos.
OS SINAIS DA DIVINDADE DE JESUS E DO MESSIAS ESPERADO.
Jesus ao entrar na história humana, foi verdadeiramente um ser humano, criatura limitada, cresceu sujeito às limitações do espaço e do tempo, na cultura, na espiritualidade, e, certamente, aprendeu a rezar com Maria. Entretanto é curioso observar, que os parentes, vizinhos, a comunidade em geral percebia algo estranho e diferente neste menino. Veja,caro leitor, o que a bíblia diz em relação à Maria: "(...) sua mãe, conservava as "maravilhas" do Todo-poderoso" e as meditava em seu coração"(cf.Lc.1,49;2,19;2,51.
Aos doze anos, quando ainda adolescente, Jesus faz a primeira revelação de sua messianidade, quando responde a Maria e José "(...)Eu devo estar naquilo que é de meu Pai (cf.Lc.2,49). Neste texto fica claro o distanciamento gradual dos laços familiares, ou seja, aos poucos vai predominar as relações acima dos laços familiares humanos. Esta é a 1ªmanifestação de sua consciência humana de estar hipostáticamente unido com o "FILHO" da augusta Trindade.(cf.ibidem p.33). Muitos sinais ao longo dos textos bíblicos, manifestam com objetividade, a verdadeira identidade e missão de Jesus.
A SOLENIDADE DO SANTO NATAL
É a grande e carinhosa manifestação de Deus para a humanidade. Deus se dá a conhecer, apesar do ceticismo de tantos. "Em Jesus Cristo a natureza divina e a natureza humana se uniram, sem confusão, sem mutação, sem divisão e sem separação, na única Pessoa do Logos ("união hipostática")."(cf.ibidem p.50). Caro leitor! O Natal nos faz entrar na lógica de Deus, ou seja, o amor para com a humanidade ao inserir-se na imanência da história, a fim de novamente dar dignidade e nos tornar participantes de sua divindade. Somente um verdadeiro Pai, para ter uma infinita misericórdia e perdão aos "fiascos" de ingratidão e soberba do ser humano. Pense e reflita! É momento de agradecer este presente!
Pe. Ari Antônio da Silva - pearisilva@hotmail.com
Doutor em Filosofia e Vigário da Paróquia de Canela - RS
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